quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

O Livro de Jó



“A honradez e o caráter de qualquer homem,  mede-se pelos atos que ele pratica no enfrentamento de adversidades, em que se espera dele o comportamento adequado à altura daquela própria situação”.

Por que pessoas boas sofrem coisas ruins?  É a questão central desta belíssima obra escrita em forma poética.  No nosso Ritual existe apenas uma ligeira referência a pessoa de Jó, citando apenas uma frase: “Por que os maus são os mais poderosos?”

O Livro de Jó é composto de 42 capítulos e merece não apenas ser lido, como analisado profundamente, é um dos livros SAPIENCIAIS, cujo nome é dado aos 5 livros do antigo testamento: Provérbios, Jó, Eclesiastes, Eclesiástico e Sabedoria.  Esses livros apresentam a sabedoria e a espiritualidade de Israel.

Em Israel, a sabedoria não é a cultura adquirida pelo acúmulo de conhecimento, mas o bom senso e o discernimento adquiridos através da meditação e reflexão sobre a experiência concreta da vida.  Trata-se de algo que se aprende na prática e que leva à arte de viver bem.  Assim nos livros sapienciais encontramos reflexões que brotam dos muitos problemas que povoam o dia-a-dia da vida de qualquer pessoa que busca o caminho da realização e da felicidade.

O significado do nome Jó (em hebraico: אִיּוֹב) é “Voltado sempre para Deus”, e a terra de Uz onde esse personagem viveu seria atualmente a região do Iraque. Há indícios de que o drama se passa entre os séculos XVII a.C.(1683a.C.) a XVI a.C. (1543a.C.).

Para dar compreensão sobre a personalidade de Jó, citaremos o preâmbulo do Livro:

Havia um homem na terra de Uz, cujo nome era Jó; e era este homem íntegro, reto e temente a Deus e desviava-se do mal.
E nasceram-lhe sete filhos e três filhas.
E o seu gado era de sete mil ovelhas, três mil camelos, quinhentas juntas de bois e quinhentas jumentas; eram também muitíssimos os servos a seu serviço, de maneira que este homem era maior do que todos os do oriente.
E iam seus filhos à casa uns dos outros e faziam banquetes cada um por sua vez; e mandavam convidar as suas três irmãs a comerem e beberem com eles.
Sucedia, pois, que, decorrido o turno de dias de seus banquetes, enviava Jó, e os santificava, e se levantava de madrugada, e oferecia holocaustos segundo o número de todos eles; porque dizia Jó: Talvez pecaram meus filhos, e amaldiçoaram a Deus no seu coração. Assim fazia Jó continuamente.
E num dia em que os filhos de Deus vieram apresentar-se perante o SENHOR, veio também Satanás entre eles.
Então o SENHOR disse a Satanás: Donde vens? E Satanás respondeu ao SENHOR, e disse: De rodear a terra, e passear por ela.
E disse o SENHOR a Satanás: Observaste tu a meu servo Jó? Porque ninguém há na terra semelhante a ele, homem íntegro e reto, temente a Deus, e que se desvia do mal.
Então respondeu Satanás ao SENHOR, e disse: Porventura teme Jó a Deus debalde (em vão)?
Porventura tu não cercaste de sebe (cerca de arbustos), a ele, e a sua casa, e a tudo quanto tem? A obra de suas mãos abençoaste e o seu gado se tem aumentado na terra.
Mas estende a tua mão, e toca-lhe em tudo quanto tem, e verás se não blasfema contra ti na tua face.
E disse o SENHOR a Satanás: Eis que tudo quanto ele tem está na tua mão; somente contra ele não estendas a tua mão. E Satanás saiu da presença do SENHOR.
E sucedeu um dia, em que seus filhos e suas filhas comiam, e bebiam vinho, na casa de seu irmão primogênito,
Que veio um mensageiro a Jó, e lhe disse: Os bois lavravam, e as jumentas pastavam junto a eles;
E deram sobre eles os sabeus(povo de Sabá), e os tomaram, e aos servos feriram ao fio da espada; e só eu escapei para trazer-te a nova.
Estando este ainda falando, veio outro e disse: Fogo de Deus caiu do céu, e queimou as ovelhas e os servos, e os consumiu, e só eu escapei para trazer-te a nova.
Estando ainda este falando, veio outro, e disse: Ordenando os caldeus três tropas, deram sobre os camelos, e os tomaram, e aos servos feriram ao fio da espada; e só eu escapei para trazer-te a nova.
Estando ainda este falando, veio outro, e disse: Estando teus filhos e tuas filhas comendo e bebendo vinho, em casa de seu irmão primogênito,
Eis que um grande vento sobreveio dalém do deserto, e deu nos quatro cantos da casa, que caiu sobre os jovens, e morreram; e só eu escapei para trazer-te a nova.
Então Jó se levantou, e rasgou o seu manto, e rapou a sua cabeça, e se lançou em terra, e adorou.
E disse: Nu saí do ventre de minha mãe e nu tornarei para lá; o SENHOR o deu, e o SENHOR o tomou: bendito seja o nome do SENHOR.
Em tudo isto Jó não pecou, nem atribuiu a Deus falta alguma.

Esse é o preâmbulo da terrível aventura que envolveu Jó que manteve a fé e a adoração ao Senhor.

O tema central do livro não é o problema do mal, nem o sofrimento do justo e inocente, e muito menos o da "paciência de Jó". O autor desse drama apaixonante discute a questão mais profunda da religião: a natureza da relação entre o homem e Deus. O povo de Israel concebia a relação com Deus através do dogma da retribuição: Deus retribui o bem com o bem e o mal com o mal.  Tal concepção arrisca produzir uma religião de comércio, onde o homem pensa poder assegurar a própria vida e até ditar normas para o próprio Deus. Contra isso, o autor mostra que a religião verdadeira é mistério de fé e graça: o homem se entrega livre e gratuitamente a Deus; e Deus, mistério insondável, volta-se para o homem gratuitamente, a fim de estabelecer com ele uma comunhão que o leva para a vida.

O livro provavelmente foi redigido, em sua maior parte, durante o exílio, no século VI a.C.  Como Jó, o povo de Judá tinha perdido tudo: família, propriedades, instituições e a própria liberdade. Ora, tudo isso era garantido por uma concepção teológica vigente até esse tempo. E aqui entra a pergunta crucial feita por Satanás: É possível ter uma relação gratuita com Deus, despojada de qualquer interesse? (Porventura teme Jó a Deus debalde?). 

Podemos dizer que todo o livro é uma busca para responder a essa questão. A resposta implica superar toda a teologia da retribuição, incapaz de responder à nova situação do povo, sem cair em absurdos. O povo estava vivendo uma nova experiência, e isso exigia uma nova forma de conceber Deus, o homem e as relações entre ambos.

Além de pretender condenar o homem para salvaguardar a justiça de Deus, essa teologia pode ser usada para condenar a Deus, a fim de salvaguardar a justiça do homem. Como sair desse impasse? A esta altura, percebemos que o livro de Jó é uma crítica de toda aquela teologia da retribuição. Essa teologia pode se tornar um verdadeiro obstáculo para a própria experiência em Deus. E aqui o autor dá o seu recado: É preciso pensar a religião a partir da experiência em Deus e não de uma teoria a respeito Dele.

Aspecto importante do livro é que Jó faz a sua experiência em Deus na pobreza e marginalização. Experiência que ultrapassa todas as explicações, tornando-se ponto de partida para uma nova história das relações entre os homens e com Deus. A confissão final de Jó - "Eu te conhecia só de ouvir. Agora, porém, meus olhos te vêem" (42,5) - é o ponto de chegada de todo o livro, transformando a vida desprovida de bens materiais em lugar da manifestação e experiência de Deus. A partir disso, podemos dizer que o livro de Jó é a proclamação de que somente desapegado da matéria (voto de pobreza) nos tornamos apto para fazer tal experiência.

O livro é um convite para nos libertar da prisão das idéias feitas e continuamente repetidas, a fim de entrar na trama da vida e da história, onde Deus se manifesta ao pobre e se dispõe a caminhar com ele para construir um mundo novo. Tal solidariedade de Deus se transforma em desafio: Estamos dispostos a abandonar nossas tradições teológicas para nos solidarizar com o pobre e fazer com ele a experiência em Deus?

Quando ficamos entristecidos face a alguma adversidade, mesmo que não possamos atinar sobre o porquê dessas adversidades, ou quando os amigos se afastam e retornam após passar a borrasca, iremos encontrar nesse livro a resposta certa aos nossos anseios e assim a reação para enfrentar os problemas e solucioná-los.

Possamos todos nós, encontrar no simbolismo bíblico o meio próprio para podermos, com galhardia, vencer os nossos dias sobre a terra, pois atualmente a nossa religiosidade frente às amarguras e durezas da vida vem esmaecendo e erroneamente buscamos solução dentro do desespero, que não nos conduz a nada, revoltando contra o criador e blasfemamos o nosso coração.

A fé na solução inesperada deve ser o alimento cotidiano do maçom.
 
Finalizando, podemos afirmar que o livro de Jó trata de um dos assuntos mais difíceis na experiência humana: como entender e lidar com o nosso sofrimento. É um livro rico e cativante que todos nós maçons precisam e devem estudar, pois um dia, mais cedo ou mais tarde, ele será útil em nossas vidas. 

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